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Festival Contemporâneo de Dança de São Paulo: arte para todos

O FCD reúne artistas da França, Síria, Croácia, Brasil e Portugal em 20 apresentações

Marcela Benvegnu | marcela@trinys.com.br

A programação da 11ª edição do FCD (Festival Contemporâneo de Dança) de São Paulo – que comemora 10 anos em 2018 – acontece entre os dias 12 e 29 de outubro, no SESC 24 de Maio e no CCBB - Centro Cultural Banco do Brasil.  Serão 20 apresentações de 9 trabalhos de artistas da França, Síria, Croácia, Brasil e Portugal. Com direção geral de Adriana Grechi o FCD apresenta nesta edição trabalhos de forte teor crítico com artistas de diversos países que investigam possibilidades de resistência e reinvenção.

Ivana Muller - Partituur

Na abertura o público poderá ver Partituur, de Ivana Muller (Croácia/França), primeiro projeto da coreógrafa feito para crianças. Partituur ('partitura musical' em holandês), é um jogo coreográfico para participantes a partir dos 7 anos, interativo, onde não há espectadores e intérpretes no termo clássico da palavra, essa fronteira é radicalmente desafiada e todos os papéis mudam constantemente. Durante o Partituur, todos recebem fones de ouvido com declarações e sugestões para ajudar na criação do programa. Os participantes também têm tempo para observar os outros, posicionar-se, jogar a favor ou contra as regras. Nesse sentido, a coreografia toma forma dependendo das escolhas, reações e posições que cada partiuuurista toma. Desse jogo nasce uma dança com propostas e ideias individuais e coletivas que não se parece com nenhuma outra. Dessa forma, Partituur lança, discretamente, as bases de uma reflexão sobre o imaginário coletivo das crianças. Brincalhão e poético, oferece a cada um a chance de pensar sobre seu relacionamento consigo mesmo e com os outros.

 

Segundo Adriana Grecchi, diretora artística do FCD, um dos destaques da programação é a participação de Vera Mantero, artista fundamental para a Nova Dança Portuguesa. Ela vem ao Brasil com três solos: Talvez ela Pudesse Dançar Primeiro e Pensar Depois (1991), Uma misteriosa Coisa, disse o e.e. cummings (1996) e Os Serrenhos do Caldeirão, exercícios em antropologia ficcional (2012). Mantero é uma artista que procurou, desde a sua primeira criação, romper com as convenções da dança moderna. Formou-se em dança clássica, dançou no Ballet Gulbenkian, estudou em Nova York e Paris, pesquisou dança contemporânea, voz e teatro. Tornou-se um dos nomes centrais da Nova Dança Portuguesa e já mostrou o seu trabalho por toda a Europa, Argentina, Brasil, Canadá, Coreia do Sul, EUA e Singapura. “São dois solos históricos e um mais autoral”, fala a diretora. “Uma grande oportunidade para que as pessoas possam conhecer o que ela tem produzido”, completa.

Vera Mantero

Talvez ela pudesse dançar primeiro e pensar depois, tem um lugar importante no percurso coreográfico de Vera. É um trabalho que já percorreu mais de duas décadas e que, singularmente, continua vivo e a ser apresentado. Foi com este solo que a autora encontrou parte da sua identidade em termos de movimento, na forma de estar em cena, nos instrumentos e elementos que utiliza para criar e atuar: um corpo que não descura os gestos, as mãos, o rosto, as expressões, que as inclui porque sabe que estes elementos fazem absolutamente parte do corpo-gente.  Em uma misteriosa Coisa, disse o e.e. cummings* ela faz uma homenagem a Josephine Baker. Na sua visão da vida e da obra de Baker, Vera opta por uma abordagem que vai para além do que se conhece da artista revelando porque a artista foi uma das personagens mais extraordinárias do século XX. E para fechar a trilogia de trabalhos, em Os Serrenhos do Caldeirão, exercícios em antropologia ficcional, Vera cruza suas próprias gravações em vídeo com trechos de filmes de Michel Giacometti, sobretudo imagens em torno de canções de trabalho. Toda a peça é povoada de vozes que vêm de longe e Vera canta para os poucos serrenhos que permanecem.

“A programação também apresenta atrações singulares, como o Mithkal Alzghair, um coreógrafo sírio exilado na França e traz ao FCD seu Displacement, criado a partir de pesquisas sobre o patrimônio das tradições culturais sírias, a fisicalidade, o transe e a dinâmica das repetições”, conta Adriana. “Também poderemos ter mais contato com os trabalhos da brasileira Vania Vaneau, radicada na Franca que apresenta Blanc, uma investigação sobre transe e transformação”, conta Adriana.

Em Displacement, Alzghair questiona o seu legado em um contexto de exílio: "A necessidade deste trabalho está relacionada com a forma como é transmitida a questão do deslocamento e da migração, da violência, dos massacres, dos conflitos e das revoluções no Médio Oriente. O meu objetivo é definir a identidade do corpo sírio, o património reconhecido, vivido e construído. (...) Através da dança, tento compreender as fontes das quais emanam as danças tradicionais, o processo de impregnação e contágio em que são construídas, tendo como base a realidade social e política que contribui para a concretização deste trabalho: a herança militar, a ditadura, os regimes autoritários, a revolução, a guerra e o deslocamento", explica o coreógrafo.

Mithkal Alzghair

Já o solo de Vania Vaneau - acompanhada por Simon Dijoud no contrabaixo - está enraizado nas origens brasileiras do coreógrafo e no seu encontro com a cultura europeia. Com base em pesquisas sobre os rituais de transe xamânicos e afro-brasileiros, o trabalho do artista tropicalista Hélio Oiticica e o chamado movimento antropofágico, Blanc questiona a exposição do corpo ao fluxo de culturas, histórias, energia e emoções que o atravessam. Com este jogo com toques de carnaval, Vania Vaneau leva o jogo de disfarce com a ajuda de trajes coloridos para implantar no espaço as diferentes camadas de que o homem é adornado como muitas peles e máscaras.

A programação também inclui apresentações do brasileiro Leandro de Souza com Sismos e Volts e de Nina Santes (França) com Self Made Man. Em Sismos e Volts o corpo se torna uma espécie de sismógrafo. A proposta trata de forças que movem, atravessam, alimentam, exaurem, desejam e coreografam. Expõe um corpo que, mais do que se move, é movido. Nina traz pra cena um entrelaçamento de movimento, fala, canto e a implantação da cenografia em tempo real. O palco é como um canteiro de obras aberto, onde tudo é feito à vista, as construções e as desconstruções. Para ela, "o palco [é] um local para um possível artesanato, como uma oficina de fabricação exposta. Um espaço em branco dedicado ao fazer, regido por um espírito autodidata, prático e intuitivo". 

“Também optamos por dar voz à alguns artistas neste festival, existe uma dança do invisível que precisa ser vista. Nesta temporada oferecemos trabalhos com um refinamento artístico, sem contar que existe uma parte pedagógica para que possamos pensar em educação e formação”, fala Adriana. “E é preciso ressaltar que só podemos ter essa programação porque tivemos o apoio do Instituto Francês de Cultura aqui no Brasil e o Instituto de Paris”, completa.

Leandro de Souza

EDUCATIVO | Além das apresentações, o FCD propõe uma série de ações voltadas à formação e à qualificação artística que potencializam diferentes formas de diálogo. No CRD (Centro de Referência da Dança) serão realizadas quatro oficinas de criação com Vera Mantero, Nina Santes, Mithkal Alzghair e Vania Vaneau relacionadas aos trabalhos apresentados, viabilizando uma aproximação às proposições, aos processos e às práticas dos artistas convidados. E em alguns dias após os espetáculos dos artistas o público é convidado a ficar para acompanhar conversas. Helena Katz, crítica de dança por 40 anos conversa com Vera Mantero. Estudantes da Escola Estadual Dr. Américo Marco Antônio, orientados por Thiago Angel, especialista em modificação corporal, performer e profissional da educação, entrevistam Nina Santes e Leandro de Souza. E Sonia Sobral, gestora cultural e curadora nas áreas de dança e teatro, gerente durante 17 anos do Núcleo de Artes Cênicas do Itaú Cultural, participará de uma conversa pública com Mithkal Alzghair.

A programação completa com dias e horários de cada um dos espetáculos, oficinas e ações educativas pode ser vista na Fanpage: Festival Contemporâneo de Dança de São Paulo, no Facebook. A entrada para todas as apresentações/atividades é gratuita.