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Aparecida: um musical

A nova empreitada de Walcyr Carrasco e Fernanda Chamma ganha vida em curta temporada no Teatro Bradesco, em São Paulo

Marcela Benvegnu | marcelabenvegnu@gmail.com

Antes de começar a ler essa matéria é preciso que você sabia que esse espetáculo não é sobre religião. “Aparecida”, o mais novo musical em cartaz em São Paulo, com texto de Walcyr Carrasco e direção de Fernanda Chamma, é uma história de fé que está em cartaz no Teatro Bradesco. Com música original e direção musical de Carlos Bauzys, letras originais de Ricardo Severo, cenografia de Richard Luiz, figurinos de Fábio Namatame, desenho de luz de César de Ramires, desenho de som de Gabriel D’Angelo e produção da MPCult, promete ser uma boa pedida para o mês de abril.

Aparecida - Divulgação. Créditos: Adriano Dória

“Nossa Senhora Aparecida faz parte do cotidiano de milhões de brasileiros. A fé, a coragem, e a solução de pequenos e grandes problemas vêm da devoção criada em torno de Aparecida. Acredito que mesmo quem não seja católico saberá respeitar o espetáculo que, além disso, teve uma concepção cênica e musical muito original”, comenta Walcyr Carrasco sobre os motivos que o levaram a escrever a obra. Ele se inspirou em uma história contemporânea real para mostrar ao público um exemplo onde a crença proporciona as transformações humanas mais difíceis. “Eu estava em busca de um milagre atual, que reafirmasse a fé. Ao conhecer o casal que protagoniza a história, me entusiasmei, por não criar um espetáculo simplesmente histórico”, revela o dramaturgo.

O ponto de partida da trama é a história do casal Caio (Leandro Luna), um advogado ambicioso e descrente, e sua esposa Clara (Bruna Pazinato), na São Paulo, dos dias de hoje. Com a esperança de curar Caio, que perde a visão por causa do tratamento de um câncer, os jovens embarcam em uma jornada de descobrimento espiritual que culmina em uma ida até a basílica da Padroeira do Brasil. Paralelamente, é narrada a história da pequena estátua de Nossa Senhora Aparecida, descoberta em 1717, mostrando a construção de seu culto, desde uma pequena capela em Itaguaçu (interior de São Paulo) até a moderna basílica na cidade de Aparecida.

São relembrados alguns dos milagres que estabeleceram a devoção da Santa: o “Milagre dos Peixes” (a história dos pescadores que não conseguiam nada em um rio e, depois de encontrarem a estátua em suas redes, são surpreendidos por uma enorme quantidade de peixes); o “Milagre das Velas” (um relato sobre as velas de um oratório da Santa que, ao se apagarem numa rajada de vento, misteriosamente se acendem sozinhas após alguns segundos); o “Milagre do Escravo Zacarias” (sobre um escravo foragido que, ao entrar numa capela de Nossa Senhora Aparecida fugindo de seu feitor, roga à Santa por sua liberdade e tem suas correntes rompidas de forma inexplicável); e o “Milagre do Cavaleiro Prepotente” (que conta como um descrente cavaleiro que pretendia invadir montado em seu cavalo uma igreja da Santa muda sua opinião depois que seu animal prende a pata na entrada do prédio). O musical relembra também o atentado sofrido em 1978, quando um jovem quebra a estátua da Santa em mais de duzentos pedaços e a cuidadosa restauração feita no MASP – Museu de Arte de São Paulo..

Aparecida - Divulgação. Créditos: Adriano Dória

COREOGRAFIA - Para construir essa narrativa, o musical adota uma encenação bem moderna, cheia de efeitos especiais. Para a diretora e coreógrafa Fernanda Chamma, o trabalho explora bastante a interação do elenco com a cenografia. “Fiz uma encenação bem de vanguarda e moderna de acordo com as novas tendências do teatro musical. O cenário vai ser todo explorado pelo elenco, inclusive durante as canções e cenas. Como ele não é estático, o elenco vai desenhar as situações cênicas o tempo todo. Estou pedindo para a equipe criativa procurar uma mescla de emoção e ineditismo para criarmos um espetáculo gostoso e dinâmico, que atinja todos os tipos de público”, revela.

A coreografia, ainda segundo Chamma, procurará desconstruir o movimento. “Eu não vou dançar a história de Nossa Senhora Aparecida, vou contá-la através do movimento. Vamos usar uma movimentação cênica contemporânea, com muitas entradas e saídas dos atores não só nas coxias, mas em toda a cena, em todo o teatro. Para desconstruir esse movimento, foi preciso selecionar bailarinos com uma bagagem técnica enorme. O elenco está envolvido com a obra em praticamente todas as cenas”, acrescenta.

MÚSICA - A história é contada a partir de 20 músicas originais, cujas letras foram compostas por Ricardo Severo a partir do texto de Walcyr. “A partir do texto que se desenvolve em dois eixos dramatúrgicos que se  unem no final, propus manter uma parte das canções inspirada no melodrama e uma outra mais épica. Acho que um grande diferencial de nosso musical original está nas letras, que trazem um discurso mais próximo da estética da canção brasileira, e não tão direto como nos musicais com estética da Broadway. Todas as letras foram compostas a partir de uma pesquisa intensa que fiz sobre a história de Nossa Senhora Aparecida, de seus milagres, sua mitologia, e dos significados e mensagens por trás de cada momento”, explica Severo.

Os arranjos das músicas, de acordo com Bauzys, misturam sonoridades diferentes. “Como a própria figura da Nossa Senhora, que abrange a enorme riqueza de toda a cultura brasileira, as melodias e harmonias do espetáculo serão bem ecléticas. E como a história da Santa é muito apaixonante, cheia de aspectos culturais incríveis, isso é um prato cheio para a criação. Para as cenas mais urbanas, somos influenciados pela música pop; para as histórias dos milagres, adotamos um tom mais épico, mágico. Também temos bastante influência de diferentes gêneros da música brasileira e afro-brasileira, além da linguagem do próprio teatro musical”, antecipa o diretor musical.

Aparecida - Divulgação. Créditos: Adriano Dória

 

CENOGRAFIA - Inspirada na arquitetura da Basílica de Aparecida, a cenografia mescla estruturas físicas grandiosas com projeções de vídeo mapeadas. Ao todo serão 23 mudanças de cenários, com 15 vídeos produzidos para o musical. “Para criar a cenografia, realizamos várias pesquisas ao longo de dois meses, em visitas a Aparecida e aos acervos históricos da Basílica. Vamos recriar a atmosfera da sala de velas da Basílica de Aparecida por meio de cenografia e luz”, conta Richard Luiz, que já criou projeções para shows, musicais e outros tipos de evento e foi diretor de audiovisual da São Paulo Fashion Week por 18 anos.

Além dessa cenografia inovadora, o musical tem vários efeitos especiais e tecnológicos. Um deles, segundo Richard Luiz, é um cavalo em tamanho natural e todo articulado, produzido especialmente para a produção. “Ele terá movimentos reais e será manipulado pelos atores, que precisarão passar por aulas para fazer essa manipulação”, revela.

 

QUEM É QUEM?

Walcyr Carrasco (texto) é dramaturgo e roteirista. Começou a carreira profissional como jornalista e escreveu diversas obras de literatura infanto-juvenil, como Quando Meu Irmãozinho Morreu, A Menina que Queria Ser Anjo e Quem Quer Sonhar. Como dramaturgo, escreveu peças que fizeram grande sucesso, como Batom (1995) e Êxtase (1997, Prêmio Shell de melhor autor). Estreou na televisão com a novela Cortina de Vidro (SBT), em 1989. Depois, escreveu as minisséries: Rosas dos Rumos (1990), Filhos do Sol (1991) e O Guarani (1991) e a telenovela Chica da Silva, para a TV Manchete. Em 1998, escreveu Fascinação para o SBT. Na TV Globo, trabalhou como supervisor de texto no seriado Retrato de Mulher (1993) e, em seguida, escreveu O Cravo e a Rosa (2000), A Padroeira (2001), Chocolate com Pimenta (2003), Alma Gêmea (2005), Sete Pecados (2007), Caras e Bocas (2009), Gabriela (2012), Amor à Vida (2013), Verdades Secretas (2015) e O Outro Lado do Paraíso (2018). Em 2008 passou a ocupa a cadeira de nº 14 da Academia Paulista de Letras. Escreveu também livros paradidáticos como Vida de Droga (1998), A Corrente da Vida (2003), A Senhora das Velas (2006), A Palavra Não Dita (2007), Juntos Para Sempre (2013) e Anjo de Quatro Patas (2013).

Fernanda Chamma (direção e coreografia) é formada em ballet clássico, com especialização nas áreas de jazz dance e musical theatre. Diretora artística da Only Broadway e dos Estúdios Broadway, coreografa shows, espetáculos, eventos e comerciais de televisão. Ministra workshops por todo país e profissionaliza jovens talentos na área de teatro musical. Junto à Rede Globo, é coreógrafa de novelas, minisséries e espetáculos. Atualmente, é jurada do programa Dancing Brasil, comandado por Xuxa Meneguel na Record TV.  Dirigiu e coreografou diversos musicais no eixo Rio/SP: Hairspray, A Gaiola das Loucas, Aladdin, Alô Dolly!, Looney Tunes, Antes Tarde do que Nunca, Hebe - O Musical, Os Produtores, A Pequena Sereia, entre outros. Foi diretora e coreógrafa residente do musical A Familia Addams no Brasil e na Argentina e diretora e coreógrafa residente do musical Mudança de Hábito no Brasil. Ganhou o Prêmio Bibi Ferreira de melhor coreógrafa de teatro musical do ano de 2016.

PARA VER -  “Aparecida”. Em cartaz no Teatro Bradesco, no Bourbon Shopping (rua Palestra Itália, 500). Sextas-feiras às 21h, sábados às 16h e 21h e domingos às 15h e 19h30. Ingressos custam entre R$ 75 e R$220 (com meia entrada). Duração de aproximadamente 2h15 minutos. Classificação livre. Informações: (11) 3670-4100.